A POLUIÇÃO ACÚSTICA EM SALAS DE AULA

Os ruídos urbanos estão cada vez mais presentes em nosso cotidiano, invadindo residências, locais de trabalho, de lazer, hospitais e escolas, podendo prejudicar as relações sociais, a comunicação, o comportamento, o rendimento escolar, a saúde etc. O objetivo principal deste trabalho foi analisar e quantificar o ruído ambiental em dez escolas do Ensino Fundamental e Médio no Distrito Federal. O parâmetro adotado foi o nível de pressão sonora equivalente e ponderado em A, LAeq, avaliado por medidores de pressão sonora que implementam tais filtros e segundo as normas estabelecidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). O ruído de fundo, atualmente chamado de ruído residual, foi medido no recesso escolar e também durante o período normal de aula. Constatou-se que cinco das dez instituições pesquisadas convivem com níveis de ruído advindos do tráfego de aviões, carros de passeio, caminhões, carros de propaganda, motocicletas, ônibus, entre outros que combinados excedem os limites recomendados pela legislação e pelas normas técnicas. Em 90% das escolas avaliadas, os níveis de ruídos observados durante as atividades estão acima dos valores máximos recomendados para o conforto acústico de uma escola. São edificações mal localizadas, dentro da malha urbana, “expostas” a níveis de pressão sonora acima daqueles recomendados pela norma e conforme o plano diretor.

Das escolas pesquisadas, quatro pertencem à rede de ensino privada e seis à Secretaria de Educação do Distrito Federal. Muitas das escolas estão em uma região afetada pelo ruído urbano, e não foram observadas barreiras ou outro tipo de tratamento acústico que favorecessem a redução da propagação do ruído urbano. Os ruídos rodoviários e de aeronaves foram os mais pronunciados em todos os casos. Para mais informações acerca da legislação e normativas da ANAC sobre ruído aéreo, acesse esse outro artigo aqui.

As salas de aulas das escolas avaliadas em geral são de alvenaria, com janelas de vidro, apresentando variações de forma e tamanho. Foi observada uma diferença significativa entre os volumes das salas e dos materiais que compõem o teto e piso, o que também influencia na qualidade acústica dos ambientes, pois estão diretamente relacionados com outro importante parâmetro acústico de ambientes fechados, o tempo de reverberação, que apesar de não fazer parte do objeto de avaliação deste trabalho, é muito importante, pois afeta a inteligibilidade da fala.

Considerando o universo das escolas avaliadas, têm-se aproximadamente 10.000 estudantes envolvidos na pesquisa, sendo estes pertencentes aos níveis de ensino infantil, fundamental e médio.

Os níveis de pressão sonora para ambientes externos e internos respectivamente, indicado nas normas 10.151 e 10.152 (ABNT, 2000; 1987), estão expressos nas Tabelas 1 e 2.

 

 

Com o objetivo de verificar o incômodo causado pelo tráfego urbano nas dependências das escolas mediu-se o nível de pressão sonora nas imediações de duas instituições. Os resultados para o nível de pressão sonora equivalente estão expressos na Tabela 3.

Estas escolas sofrem diariamente com os ruídos devido ao tráfego aéreo e terrestre, tendo suas dependências fortemente afetadas, visto que as distâncias entre algumas salas de aula e a avenida não ultrapassam 8m. Quanto ao tráfego aéreo, a Escola 1 sofre mais seus efeitos, pois se encontra numa das rotas de aviões que leva ao Aeroporto Internacional de Brasília.

De acordo com a NBR 10.151 (ABNT, 2000) o nível de critério de avaliação para área estritamente residencial urbana, hospitais ou de escolas é 50 dB(A) para o período diurno, horário em que foram realizadas as medidas. Comparando o valor especificado pela norma com os resultados obtidos para os limites externos das escolas, verifica-se que estes estão bem acima do nível estabelecido. Apesar do estudo englobar um universo mais amplo, com dez escolas, a análise em apenas duas instituições foi suficiente para evidenciar uma realidade crítica: o ambiente escolar está sofrendo os efeitos nocivos da poluição sonora. Este fato deve-se principalmente ao fluxo de veículos em frente às escolas. São carros particulares, vans, caminhões, ônibus, motocicletas, carros de propaganda entre outros.

Os valores referentes ao LAeq, ruído de fundo, para as escolas no recesso escolar e em atividade normal estão expressos na Figura 1. O traço inferior mais grosso (40 dB) representa o nível de pressão sonora máximo para conforto acústico, enquanto que o valor superior (50 dB) significa o nível aceitável para a finalidade, conforme especificado pela NBR 10.152 (ABNT, 1987). Na nova versão da NBR 10.152 os níveis de pressão sonora equivalentes e ponderados máximos permissíveis para salas de aula são de LAeq=35 dB.

 

 

Os valores observados para o LAeq no período de recesso escolar variaram de 42 a 67 dB(A), sendo 52 dB(A) o valor médio com um desvio padrão de 8,4 dB(A). Para as medidas realizadas em salas desocupadas, porém no período letivo, os valores variaram entre 50 e 71 dB(A), com valor médio de 60 dB(A) e desvio padrão de 7,1 dB(A).

Os dados encontrados revelam que as escolas 1, 2, 4, 9 e 10 são as mais “afetadas” pelos ruídos advindos do tráfego urbano. O ruído do trânsito, não só terrestre como aéreo, repercute no interior das salas de aula, degradando significativamente o ambiente.

Comparando os resultados obtidos para o ruído de fundo no recesso escolar, verifica-se que das dez escolas pesquisadas, metade apresenta valores acima daqueles recomendados pelas normas, ou seja, superiores a 50 dB(A). Os resultados comprovam que estas escolas estão sendo “contaminadas” pelo ruído proveniente do tráfego urbano.

Se for considerado o valor do ruído de fundo no período letivo, a situação é ainda mais grave, pois neste caso nenhuma das escolas atenderia aos limites estabelecidos pela norma.

As escolas que apresentaram os maiores níveis de pressão sonora foram a 1 e 10, isto porque estão localizadas em regiões onde o tráfego urbano é intenso e não apresentam tratamento acústico específico que atenue os ruídos externos. No caso da Escola 1, em uma hora de medida, foi observado a passagem de 18 aviões, provocando picos nos níveis de pressão sonora superiores a 90 dB(A). Além do tráfego aéreo, a escola sofre também com o ruído do tráfego terrestre como já mencionado anteriormente.

Dentre os veículos que mais contribuem para o aumento dos NPS nas dependências da escola, pode-se citar os veículos pesados, carros de propaganda e aviões. Não se pode descartar nem mesmos os veículos intermediários e leves. Um caminhão, por exemplo, pode produzir níveis de pressão sonora superiores a 85 dB, enquanto que um carro de propaganda supera os 100 dB. Devido a localização da escola, não se pode descartar nem mesmo o ruído produzido pelos veículos intermediários e leves.

Já a Escola 10 está situada próxima a uma avenida muito movimentada da cidade de Taguatinga, com grande fluxo de veículos, que dá acesso às zonas nortes e sul da cidade, além de servir de passagem para outras regiões administrativas do DF. O nível de pressão sonora equivalente de 65,5 dB(A) foi medido numa sala de aula que se encontra a pouco mais de 20m da avenida. São motos, carros de passeio, ônibus, carros de propaganda, caminhões e vans transitando diariamente no sentido norte-sul e sul-norte. Durante a passagem dos ônibus foi registrado níveis superiores a 70 dB(A), enquanto que as vans, em número excessivo, foram registrados níveis acima de 65 dB(A).

No caso das Escolas 5, 7 e 8 verificam-se níveis de pressão sonora mais amenos. Estas instituições se localizam em Brasília, região do DF onde se observa uma maior distância entre as avenidas e os limites da escola, além de menor fluxo de veículos, o que reduz consideravelmente os incômodos causados por esta modalidade de poluição.

Na Figura 01 pode-se observar também a diferença entre os níveis de pressão sonora medidos no recesso escolar e no período letivo. Era de se esperar, que durante o período letivo, o NPS fosse maior, porém as escolas 3, 4 e 6 apresentaram diferenças significativas, 21%, 25% e 28%, respectivamente. Vale ressaltar que são ruídos gerados pelas atividades da própria escola. No caso da Escola 3 deve-se principalmente ao transito de alunos e conversas paralelas nos corredores. Em relação à Escola 4, o sistema adotado é de salas ambientes, isto é, existem salas específicas para cada disciplina, o que obriga os alunos a se movimentam, trocarem de sala a cada 50 minutos. Como não há um acompanhamento eficiente desta movimentação, foi observada uma demora excessiva na troca de salas e também a presença quase constante de alunos nos corredores, o que contribui para o aumento dos ruídos internos gerados na escola. Na escola 6 a diferença pode ser atribuída principalmente às atividades de recreação e educação física que são realizadas em locais próximos às salas de aulas em atividades.

A diferença observada entre a média do ruído de fundo no recesso escolar – 52 dB(A) e a média com a escola em atividades normais – 60 dB(A) é significativa. Este resultado deve-se, principalmente, às atividades desenvolvidas em cada escola.

 

CONCLUSÕES

A pesquisa desenvolvida buscou revelar as condições adversas em que se encontram várias escolas da rede pública e privada do Distrito Federal. Os resultados encontrados mostram realidades diferenciadas e preocupantes. São escolas que sofrem diariamente com o ruído urbano, provindo principalmente do tráfego aéreo e terrestre. Estas fontes provocam o aumento dos ruídos internos produzidos pelos próprios alunos, potencializando as dificuldades de comunicação e aprendizagem, o que afeta fortemente a qualidade ambiental desses estabelecimentos (ENIZ e GARAVELLI, 2003).

Outros estudos têm demonstrado índices acima dos recomendados, mas não tão elevados como os observados neste trabalho. Em Omaha, Nebraska, Bowdwn, Wang e Bradley (2002) encontraram níveis variando entre 38 e 55 dB(A), com média de 48 dB(A) e desvio padrão de 7,0 dB(A). Já em Ottawa, Canadá, Sato e Bradley (2004) encontraram valores na faixa de 42 dB(A).

A análise dos valores de ruído de fundo obtidos durante o recesso escolar e no período de atividades normais mostrou que os níveis de pressão sonora estão muito além daqueles recomendados pelas normas. São normas regidas por instituições governamentais, como a Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEDF), que não são observadas.

O estudo revela que metade das dez escolas avaliadas não atende as especificações das normas regulamentadoras. A Escola 1 é a que tem suas dependências mais fortemente afetadas pelo ruído urbano. Durante o recesso escolar, o ruído de fundo atingiu 67,3 dB(A), valor muito acima do estabelecido como confortável. Este tipo de ambiente interfere no processo ensino-aprendizagem e ainda degrada a qualidade de vida daqueles que ali trabalham. São alunos e professores convivendo com níveis de pressão sonora acima daqueles permitidos pela legislação. As Administrações Regionais, juntamente com a secretaria competente, não controlam devidamente a questão da poluição sonora no interior das edificações escolares, revelando assim uma situação demasiadamente crítica.

Em países como Suíça e EUA, as normas relativas ao controle da poluição sonora no ambiente escolar são mais rigorosas, uma vez que o limite indicado para o ruído de fundo de uma sala de aula desocupada, não deve exceder 35 dB(A) (KNECHT et al., 2002).

É necessário, então, maior atenção ao planejamento urbano, pois instituições escolares devem estar isentas deste tipo de contaminação ambiental. Embora os mais jovens sejam os mais afetados, os prejuízos desencadeados por excesso de ruído afetam estudantes de qualquer faixa etária.

No caso de escolas já estabelecidas, este estudo mostra a necessidade urgente da implementação de medidas que visem mitigar este grave problema de poluição.
Um fator importante, observado principalmente, nas escolas 3, 4 e 6, foi o elevado nível de ruído provocado pelas atividades desenvolvidas na própria escola. Esta é uma situação, que ao menos em tese, é mais fácil de gerenciar.

A solução para minimizar o impacto da poluição sonora no ambiente escolar varia de escola para escola, mas em cada um dos estabelecimentos, pode-se adotar medidas de caráter geral. Assim, recomenda-se:

  • Trabalhos de educação ambiental, envolvendo a comunidade acadêmica, sobre o tema poluição sonora e os danos à saúde humana.
  • Rever práticas usualmente observadas em escolas, que contribuem para o agravamento do problema: intervalos diferenciados para turmas com faixa etária distintas, atividades recreativas ou de educação física em espaços próximos às salas de aulas. Além disso, manutenções simples, como a colocação de protetores de borracha nos pés das cadeiras e mesas, utilizadas nas salas de aulas, também contribuem para a redução dos níveis de ruído.
  • Um estudo detalhado de cada ambiente, com o objetivo de aprimorar as condições arquitetônicas, visando à melhoria da qualidade acústica destes ambientes, principalmente para as escolas com problemas de contaminação externa mais grave. Faz-se necessário, que planejadores, arquitetos, urbanistas e o poder público de maneira geral, levem em conta a interferência do ruído ambiental no processo ensino aprendizagem, e consequentemente, passem a conceber Planos de Ordenamento Territorial e edificações com melhores condições de conforto acústico.

Autor: A. Eniz1; S. L. Garavelli2

 

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