Acústica para escritórios: como adequar o som e melhorar a produtividade?

O incômodo ao ruído não apenas interfere na conversação e inteligibilidade da fala, como também, apresenta efeitos negativos comprovados na saúde humana.

Tais efeitos são considerados auditivos, associados à perda auditiva temporária ou permanente, ou extra auditivos, associados aos prejuízos físicos e mentais.

Estes, em virtude das reações fisiológicas associadas à exposição, podem estar relacionados:

  • A doenças cardiovasculares;
  • Efeitos psicossociais generalizados;
  • redução do desempenho e da atenção;
  • Além de aumento do comportamento agressivo;

Muitos de nós passamos grande parte de nossas vidas no trabalho. Porém, raramente pensamos sobre como o ambiente em que trabalhamos pode afetar nossa qualidade de vida.

Ambientes de trabalho acusticamente agradáveis são essenciais para saúde e bem-estar dos funcionários, pois resultam em ganhos na capacidade de concentração e produtividade.

No entanto, o ruído é um problema bastante comum em escritórios. Existem soluções? Pois neste artigo iremos discorrer a respeito desse tema.

Problemas mais comuns do ruído em ambientes corporativos

Podemos, inicialmente, relacionar alguns dos problemas de ruído em espaços corporativos com o tipo de layout do escritório.

Escritórios com layout celular, por exemplo, são geralmente indicados para empresas que necessitam de maiores níveis de privacidade. Ambiente assim são caracterizados por espaços individualizados, que não se “misturam”.

Neste tipo de configuração, são utilizadas divisórias e portas que favorecem o isolamento sonoro entre os ambientes do escritório, sobretudo, se os sistemas utilizados apresentarem bom desempenho acústico.

Escritórios panorâmicos apresentam uma configuração espacial menos rígida quando comparada ao layout celular, sendo considerado pela arquitetura corporativa um tipo de layout entre o celular e o de planta livre (open space). Neste tipo de configuração, há uma maior valorização do trabalho em grupo, sem abrir mão da privacidade e divisão hierárquica.

As inovações nas formas de trabalhar resultaram em novas configurações espaciais e tipos de layout como o modelo de planta livre, ou open space.

Este tipo de layout consiste em uma configuração sem paredes, privilegiando o contato entre os funcionários e a flexibilidade dos espaços.

Fonte: https://www.officelovin.com/2015/04/06/take-look-inside-prezis-san-francisco-office/gensler-office-prezi-6/

Esta configuração pode trazer benefícios à dinâmica operacional da empresa. Dado que a ausência de divisórias beneficia a visualização de todo o ambiente, resultando em ganhos na rapidez da comunicação e produtividade.

No entanto, do ponto de vista do conforto acústico, podem ocorrer prejuízos no que diz respeito à: privacidade, inteligibilidade da fala e a capacidade de concentração, quanto mais livre e integrado o layout do escritório. Ainda assim, existem diversas soluções para tratamento acústico destes espaços.

Fonte: https://blog.urbanhyve.com.au/future-of-work/inspiring-office-workstation-design-layou/

 

Como é acústica para escritórios?

A acústica de um escritório pode ser tratada a partir de sistemas de isolamento vibro-acústico, com soluções para o isolamento de transmissões diretas e indiretas, além do isolamento ao ruído e vibrações de máquinas e equipamentos, e instalações hidráulicas, que se apresentam como problemas frequentes. Também deve ser tratada a partir do equilíbrio das superfícies de reflexão e absorção, com indicações de materiais de revestimento adequados. Além disso, em muitos casos, pode-se igualmente recorrer ao mascaramento artificial do som, acrescentando um som ambiente de nível baixo de forma a reduzir a nitidez da fala e, consequentemente, evitar distrações a partir de uma maior confidencialidade do espaço.

Fonte: https://www.inc.com/jennifer-walton/3-ways-to-design-an-open-office-that-employees-love.html

As frequências consideradas dominantes em escritórios são as que caracterizam a voz humana, comprovadas em estudos sobre o assunto [1, 2], ou seja, a faixa de frequências entre 250 Hz e 4.000 Hz. Pode-se dizer, portanto, que os níveis sonoros advindos da conversação são os tipos mais comuns de ruído em ambientes de trabalho.

A caracterização da qualidade sonora do ambiente depende de critérios básicos como os valores de nível sonoro aceitáveis e o tempo de reverberação ideal. E como saber quais critérios e recomendações atender para a análise acústica de um escritório?

Normativa brasileira – as recomendações para a acústica de escritórios

No Brasil, todavia não existe uma norma específica de acústica para escritórios, sendo recomendados os critérios da ABNT NBR 10.152, que recomenda valores de nível sonoro para ambientes internos a edificações em função da finalidade de seu uso. No caso de escritórios, são recomendados níveis internos para ambientes diversos. Os níveis internos para salas de reunião variam entre 35 dB(A), valor representativo da condição de conforto, e 40 dB(A), limite do nível sonoro “aceitável”. Para escritórios privativos (gerência, diretoria) e salas de vídeo conferência, os níveis variam entre 40 dB(A) e 45 dB(A). Escritórios coletivos (open plan), recepções e salas de espera, os níveis variam entre 45 dB(A) e 50 dB(A). Para centrais de telefonia (call centers) e circulações, os níveis variam entre 50 dB(A) e 55 dB(A).

A norma brasileira ABNT NBR 12179, publicada em 1992, apresenta recomendações para o tempo de reverberação ideal em casos específicos de ambientes como: estúdios de rádio para a palavra, salas de conferência, cinemas, estúdios de rádio para a música, salas de concerto, igreja protestante, sinagogas, igreja católica, ópera e locais para música de órgão. Nenhum dos ambientes da NBR 12179 considera o tempo de reverberação para escritórios, concluindo-se que a Norma não pode ser aplicada para a avaliação deste tipo de ambiente.

Normas internacionais – o que definem e como podem ser usadas?

Existem normas internacionais que podem ser utilizadas como parâmetro para caracterização do tempo de reverberação em escritórios, como a norma alemã VDI 2569, intitulada Schallschutz und Akustische Gestaltung im Bϋro (Controle de ruído e tratamento acústico em escritórios). Publicada em 1990, esta norma recomenda um valor menor ou igual a 0,5 s para o tempo de reverberação médio nas frequências de 500, 1.000 e 2.000 Hz [3].

Outras normas internacionais podem ser utilizadas para análise da qualidade acústica de escritórios, como a parte 3 da norma ISO 3382 (Medição de parâmetros de acústica de salas – Parte 3: Escritórios de planta livre). Publicada em 2012, esta norma especifica métodos para medição das propriedades acústicas de ambientes de escritórios com planta livre (open plan offices). Além do procedimento de medição, a norma define os equipamentos necessários para a medição, o método para avaliação dos dados e a elaboração do relatório de ensaio.

Na França, a norma NF S 31-080 “Bureaux et espaces associés” trata da qualidade acústica de escritórios e espaços similares, como escritórios individuais e coletivos, escritórios open space, salas de reunião, espaços de lazer, restaurantes empresariais e circulação. Até a publicação da NF S 31-080, em 2006, não existiam parâmetros normativos definidores da qualidade acústica de ambientes de trabalho. Este assunto era abordado em função de critérios quantitativos, ou seja, considerando apenas os riscos de perda de audição, e não qualitativos. O ruído em ambientes de trabalho pode provocar fadiga, estresse e influenciar na concentração dos funcionários. A norma Francesa estabelece critérios mínimos, intermediários e superiores de desempenho acústico para escritórios, em função da finalidade de uso dos espaços.

Tendo em vista a ausência de parâmetros normativos que tratem especificamente da qualidade acústica de ambientes corporativos no Brasil, estas e outras normas internacionais podem amparar o projeto acústico de ambientes com esta finalidade de uso.

Princípios básicos de projeto e execução de acústica para escritórios que pode evitar problemas

 

 

Cada caso particular deve ser planejado e executado conforme suas demandas específicas. Ainda assim, certas condutas de projeto e execução podem ser úteis para impedir estresses futuros com o ruído. A setorização interna pode ser planejada de forma a resguardar os ambientes mais “sensíveis”, como salas de reunião, dos demais ambientes.

Deve-se atentar para todo tipo de transmissões parasitas, ou “pontes acústicas”, que podem levar à transmissão do ruído de um ambiente para outro, como forros rebaixados contínuos entre ambientes contíguos, rodapés elétricos, e sistemas de piso flutuante, cuja estanqueidade é essencial para evitar a transmissão do ruído entre o piso flutuante e a laje e também entre o piso e as paredes. Outros problemas também podem ser relacionados às tubulações ou quaisquer dutos e conexões que cruzam o piso ou paredes, devendo ser recobertas com material resiliente.

Fonte: https://womenhack.com/company/squaretrade/squaretrade-07-hirez-031/

 

É importante que a especificação do forro contemple propriedades acústicas de absorção/reflexão adequada ao local, e que a transmissão sonora seja impedida ou atenuada por divisórias de piso a laje de teto, com isolamento adequado na passagem de instalações no entre forro.

Com relação à reverberação excessiva, esta pode ser trabalhada na etapa da definição dos materiais de revestimento, como forros, piso e paredes, para atender ao tempo de reverberação ideal do espaço.

 

[1] REICH, M.; PASSERO, C.; ZANNIN, P. O Conforto Acústico em Escritórios Panorâmicos, Estudo de Caso em um Escritório Real, 2009.

[2] HONGISTO, V.; KERANEN, J.; LARM, P. Simple Model for Acoustical Design of Open-Plan Offices. Acta Acustica, Gent, Belgica, v. 90, n. 3, p. 481-495, maio/jun. 2004.  

[3] FREYMUTH, H. et al. Lehrbuch der Bauphysik. 5. ed. Stuttgart: B. G. Teubner, 2002.

 

Autora: Bruna Croce

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