Conchas acústicas: simplicidade ou complexidade?

As salas de concerto e as conchas acústicas em ambientes abertos ou fechados criam espaços performáticos onde a acústica é algo necessário e desejável. Neste artigo pretendemos abordar alguns conceitos mais importantes para considerar quando se projeta esse tipo de ambiente. Espero que gostem!

1.1 As salas de concertos

Numa sala de concertos, como é o caso da Filarmônica de Berlim, a orquestra e a audiência estão no
mesmo espaço, garantido a mesma sensação acústica para músicos e audiência. Sendo uma sala
dedicada a uma determinada manifestação acústica – os concertos – o tempo de reverberação pode ser
estabelecido de forma adequada à função da sala.

1.2 Polivalência

Em países com pouco recursos financeiros, como é o caso de Portugal, ou à escala regional, é comum
que se pretenda que as salas de espetáculos sejam polivalentes, acolhendo teatro, dança, concertos,
espetáculos de música amplificada e cinema. Além do problema mais imediato ligado ao tempo de
reverberação, que é muito diferente de acordo com o tipo de manifestação artística, e da relação de
metros cúbicos de ar por cada espectador; um edifício polivalente traz grandes desafios devido à
relação entre a zona do palco e a audiência.

Veja o volume por pessoa de diferentes tipos de salas de concerto ou teatro, visto a absorção sonora das pessoas, na tabela abaixo.

Tabela 1 – Valores recomendados de volume de ar por pessoa [1]

1.3 As salas de cena contraposta

Uma sala de cena contraposta, em que a caixa de palco e plateia são volumes independentes ligados
entre si pela boca de cena, sendo boa para Teatro, levanta alguns problemas para a realização de
concertos sinfônicos. Com frequência o volume da caixa de palco e superior ao do auditório, o que
acarreta efeitos nefastos, nomeadamente a “perda de som” para a caixa de palco, e comportamentos
acústicos muito dispares entre a zona da orquestra e o auditório propriamente dito. Por outro lado, os
panejamentos do palco que enquadram a orquestra, além de serem absorventes, absorvem em bandas de
frequência específicas o que pode introduzir desequilíbrios acústicos.

Figura 1 – Representação esquemática da perda acústica de uma orquestra numa sala de cena contraposta com caixa de palco

 

2 Conchas acústicas

2.1 Conceito

A concha acústica é um equipamento que se monta no palco, de forma a fazer a unificação
volumétrica entre palco e plateia. A concha deve ser constituída por paredes laterais, parede de fundo e
teto, em material refletor acústico, ficando aberta para o lado do auditório.
As paredes laterais devem ser oblíquas entre si e abrindo para o lado do auditório, de forma a evitar
ondas estacionárias e facilitar a reflexão do som do palco para a audiência. De igual forma o teto
deve ser inclinado, ficando oblíquo em relação ao piso do palco.

Figura 2 – Representação esquemática do comportamento de uma concha acústica

Ao fazer-se a unificação volumétrica entre o palco e o auditório, consegue-se aumentar o
tempo de reverberação global da sala, melhorando o seu comportamento acústico para a realização de
alguns tipos de concerto. Mas utilizando a concha acústica se reduz e se projeta o som para o público.
É importante garantir uma boa reflexão e difusão do som proveniente do palco, para que os músicos e
o público tenham a mesma percepção acústica. Não menos importante é garantir o conforto acústico
dos músicos, para que se consigam ouvir uns aos outros nas melhores condições e assim tocar de
forma harmoniosa.

 

2.2 Organização da orquestra

As orquestras podem ter diversas formações, de acordo com o repertório e o tipo de composição. É
possível ter formações pequenas, com 12 a 18 músicos, até formações bastante grandes, com 120
músicos. Uma orquestra clássica “típica” tem entre 45 a 60 músicos.

A disposição dos músicos tem variado na história e pode ser alterada de acordo com a acústica da sala,
caso o maestro assim o entenda. No entanto a disposição normal tem à frente, junto ao público, as
cordas (violinos, violas, violoncelos e contrabaixos), seguida pelas madeiras (flauta, oboé, clarinete e
fagote), pelos metais (trompa, trompete, trombone e tuba) e por fim, ao fundo, a percussão. Quando se
trata de orquestra com coro, este fica por trás da percussão.

Figura 3 – Orquestra Metropolitana de Lisboa, actuando na concha acústica do Teatro São Luiz

A orquestra é disposta em vários patamares, ficando as cordas no nível mais baixo e a percussão no
nível mais alto, o que facilita a propagação do som da orquestra para a sala e o equilíbrio relativo entre
os diversos sectores da orquestra, bem como permite estabelecer uma boa relação visual entre músicos
e maestro.
Ao projetar uma concha acústica é importante ter em consideração a implantação da orquestra, de
forma a garantir a correta distribuição dos diversos sectores. São factores críticos a largura ao fundo,
para que caiba a percussão, e a altura no fundo, de forma a permitir concertos com coro.

2.3 Configurações

Como se referiu, a composição das orquestras é muito variável, nomeadamente no respeitante ao
número de músicos. Desejavelmente a profundidade da concha acústica deverá ser variável para que a
dimensão da concha se possa adequar à dimensão da orquestra.

Figura 4 – Planta esquemática da concha acústica do Centro Cultural Olga Cadaval, mostrando a
configuração maior, com 220 m2
e uma configuração intermédia, com 150 m

 

2.4 Variação acústica

Ocasionalmente pode surgir a necessidade de fazer a variação acústica da concha. Essa necessidade
pode decorrer do tipo de formação da orquestra, ou caso o maestro entenda que um determinado sector
deve ser reforçado ou atenuado em relação aos outros.
A variação acústica pode ser conseguida de forma expedita através da alteração da geometria da
concha acústica (rodando os painéis das paredes e tetos), através da diminuição da área de reflexão
(suprimindo alguns painéis, sendo o som absorvido na caixa de palco) ou através da diminuição do seu
volume (baixando o tecto ou aproximando ou afastando o fundo).

 

Figura 5 – Planta esquemática da concha acústica do Teatro Municipal da Guarda, mostrando
diferentes hipóteses de variação do ângulo das paredes laterais e de fundo

 

 

3 Condicionantes

O projeto das conchas acústicas tem que dar resposta a uma série de condicionantes que não apenas
as questões acústicas. Há que dar resposta a problemas como a visibilidade, a iluminação cênica, a
montagem da orquestra e onde guardar a concha quando não está a ser utilizada (sem impedir o
funcionamento dos demais equipamentos cênicos).

A resolução destes problemas só é possível se houver uma grande interação entre o projeto da
concha acústica e o projeto cênico.

3.1 Acesso de instrumentos

O acesso a instrumentos pode parecer uma questão irrelevante mas não é. Além da dificuldade da
montagem da orquestra, em que há instrumentos grandes, como os timbale e contrabaixos, ocorre com
alguma frequência haver programas para piano e orquestra, em que é preciso fazer sair o piano de cena
nas peças só para orquestra. Assim o projeto da concha acústica deverá considerar a movimentação
dos instrumentos na sua montagem inicial e a sua movimentação pontual à frente do público.

3.2 Facilidade de montagem e desmontagem

A generalidade das salas com conchas acústicas tem uma programação bastante diversa, sendo
importante para a gestão cultural do espaço que os tempos de montagem de uma orquestra sejam
curtos. Uma concha acústica facilmente tem centenas de metros quadrados de superfície reflectora,
pesando várias toneladas. Na maior parte dos casos justifica-se a implementação de sistemas de
motorização que permitam fazer a montagem de forma rápida e segura.

 

Figura 6 – Sistema de motorização da concha acústica do Teatro Municipal de Faro

3.3 Iluminação cênica

Uma correta iluminação da orquestra é particularmente importante para os músicos, para poderem ler
as partituras, e para o público, uma vez que a ver a orquestra faz parte do espetáculo musical.
Os métodos convencionais de iluminação de espetáculos, com projetores montados em varas, obriga
a abrir grandes rasgos nos tectos da concha, fazendo perder área de reflexão. Assim é importante
considerar sistemas de iluminação integrados nos painéis dos tectos. Estes sistemas de iluminação
devem ser de intensidade variável e composto por múltiplos pontos de forma a evitar sombras, que são
perturbadoras para a leitura das partituras.

3.4 Armazenamento

O armazenamento da concha acústica quando não está a ser usado é outro fator de grande
importância. Numa programação cultural normal, os espetáculos de orquestra não chegam a ser 5%
da programação. Assim é importante que a concha acústica não perturbe os restante 95% dos
espetáculos. Sendo a concha acústica um equipamento de enormes dimensões, no desenvolvimento
do projeto deve ser estudada a melhor forma de a armazenar, de preferência sem ter de a tirar da
caixa de palco.

Figura 7 – Painéis da concha do Centro Cultural Olga Cadaval suspensos da teia quando não estão em
uso. Entre os painéis da concha é possível ver as varas dos cenários

 

4 Conclusões

O projeto de acústica das salas de espetáculos é particularmente complexo, sobretudo quando é
necessário que a sala seja polivalente. Uma sala de cena contraposta, com caixa de palco e plateia,
sendo boa para Teatro, levanta alguns problemas para a realização de concertos sinfônicos.
A concha acústica é um equipamento que ao fazer a unificação volumétrica entre palco e plateia,
permite que acusticamente as salas tenham a polivalência desejada. É importante garantir uma boa
reflexão e difusão do som proveniente do palco, e que os músicos e o público tenham a mesma
percepção acústica. No entanto o projeto deste tipo de equipamentos tem que dar resposta a uma série

 

Autora: Paulo Prata Ramos

 

 

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