Tempo de Reverberação Ideal

Você já foi numa partida de futebol e a energia daquele lugar contagiou a torcida a gritar sem medidas a cada quicar de bola ou apitar do juiz? Já foi a um teatro, fechou os olhos e escutou a música enchendo o ambiente e apreciou os detalhes da execução? Já cantou maravilhosamente para sua plateia mais fiel: a prateleira de xampus? Já sentou num sofá confortável rodeado por cortinas e seus pés calçados no tapete e manteve uma conversa horas a fio naquela sala perfeita para visitas?

Todas essas perguntas têm a ver com o nosso conforto e que cada lugar tem um propósito acústico. Este propósito vai depender de um parâmetro muito importante: o tempo de reverberação.

O tempo de reverberação é um parâmetro acústico muito importante que qualifica um ambiente de acordo com sua finalidade. Todos lugares que usam a comunicação como meio principal deveriam se preocupar com o tempo de reverberação ideal.

Mas afinal, o que é o tempo de reverberação e o que o faz ser ele o mais importante parâmetro acústico para ambientes?

Para os entendedores do assunto, tempo de reverberação é o tempo que a energia sonora permanece no ambiente depois que a fonte cessa sua emissão. Isto quer dizer que o som saído de sua boca dura no ambiente porque ele reflete várias vezes nas paredes, tetos e objetos, permanecendo naquele lugar mesmo depois de pronunciada a palavra. A cada reflexão ele vai diminuindo sua intensidade, pois deixa um pouco de energia em cada superfície. Ou seja, o som reverberante torna o local mais vivo e vibrante.

O tempo de reverberação depende de dois principais fatores: volume (tamanho) do ambiente e área de absorção. Quanto maior o volume, maior o tempo de reverberação, pois existe mais área de superfície que o som se refletirá. Quanto à absorção, quanto maior área de superfícies que absorvem energia, menos intenso o som será a cada reflexão e consequentemente, menor o tempo de reverberação.

Com um volume grande e pouca área de absorção, temos como exemplo um ginásio que em apitos, quicar de bolas e gritos de torcida preenchem o ambiente e atiçam seus ouvidos. Já um teatro, por exemplo, é uma ambiente com grande volume e que tem sua área de absorção tratada. Neste lugar, projetado para a apreciação de performances ao seu máximo, precisa-se de uma reverberação tal que a apresentação seja suave, limpa e macia. Por isso as cortinas, carpetes e outras superfícies absorventes são estrategicamente posicionadas em teatros, para que o som não seja estimulante e gritante como num ginásio, mas seja intenso o suficiente para envolver o público tanto na palavra falada, como na execução musical.

Um exemplo clássico que transforma qualquer um em cantor profissional (pelo menos nos sentimos assim) são os banheiros que apesar do seu volume pequeno possui cerca de 98% de superfícies refletoras. O “cantar no chuveiro” é tão prazeroso porque ele é reforçado pelos azulejos, ampliando a energia cantada e preenchendo o pequeno ambiente com reverberação. Para uma sala perfeita na recepção de visitas, temos um ambiente com volume pequeno e área de absorção grande por materiais fofos e porosos como tapetes, cortinas, sofás e poltronas que retêm energia garantindo intimidade acústica e menor reverberação, deixando à vontade seus amigos para aquela conversa de horas a fio.

Como se pôde perceber, não existe um tempo de reverberação universal que seja apropriado a todos os ambientes. O tempo de reverberação de uma sala de estar não cabe a um ginásio. A reverberação ideal vai depender do tipo de lugar e do volume do ambiente existindo uma norma sobre tratamento acústico em recintos fechados (NBR 12.179) para isso. Ao conhecer o volume do recinto em metros cúbicos e a finalidade do ambiente, se é estúdio, teatro ou até igrejas, obtém-se o tempo de reverberação ideal.

Para um projeto acústico, esse conhecimento é essencial, pois a partir dele cálculos de reverberação são feitos. Assim, como o volume é fixo, mudam-se os materiais das superfícies do local de acordo com sua absorção. Esse cálculo não é tão simples quanto parece, porque envolve toda uma gama de frequências do som grave ao agudo que deveriam ser atendidas em tempo de reverberação ótimo também. Portanto, se há pretensão de utilizar da acústica como um dos objetivos principais do recinto, melhor contratar um profissional da área que entenda do assunto.

Abram seus ouvidos. Ouçam o que está ao seu redor. Se você se sente incomodado, será que a razão é uma reverberação excessiva? Ou se você está palestrando um assunto muito interessante e a plateia não consegue se concentrar, será que a energia refletida no ambiente não é o suficiente para chamar a atenção? A comunicação necessita de uma acústica viável e ela está em todo lugar, basta ouvi-la.

 

Ingrid Knochenhauer de Souza – Eng. Civil especializada em acústica
Pablo Giordani Serrano – MEng. Mecânico especializado em acústica

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10 respostas
  1. Mariana
    Mariana says:

    Parabéns pelo artigo, acredito que na etapa de projeto o cálculo de reverberação é crucial para determinar o volume do ambiente, quando ainda tempos poucas informações. Muitas vezes a acústica se resulta após edificações e se limita aos materiais, quando poderia ser otimizada em etapas iniciais de projeto.

    Responder
    • portalacustica
      portalacustica says:

      É verdade Mariana. O tempo de reverberação pode sim dar um bom indicativo do volume necessário e também dar uma visão da quantidade de absorção que será necessária. Se for uma sala de concertos, há um valor de volume por pessoa que em geral varia de acordo com o tipo de música e boas salas possuem valores similares.

      Responder

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  1. […] Antes de mais nada, vamos dar um passo atrás e entender mais sobre os materiais acústicos de uma maneira geral. Quando falamos de acústico, pensamos em um material para absorver o som e tentar reduzir a reverberação de um local. Essa redução, do que algumas pessoas inadvertidamente chamam de “eco”, é necessária para atingirmos o tempo de reverberação ideal de uma sala. Cada sala tem uma aplicação distinta, e com isso tempos de reverberação ótimos. Falo sobre a diferença de eco e reverberação neste outro post aqui. E sobre a reverberação ideal neste post aqui. […]

  2. […] vimos no post publicado aqui no blog Tempo de Reverberação Ideal, o planejamento de tempo de reverberação para o ambiente depende do tamanho e propósito do […]

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